Contos

"... Saudade ..."

"Quando tudo parece tranquilo, quando está tudo confortável, a vida vem, através do poder celestial de YHUH, e puxa o nosso tapete. Tu não sabes a falta que me faz... "

10/27/2021 13 min read

Enquanto eu passava pela trilha das folhas, depois de procurar a noite toda por aquele maldito lobo que roubou minha ovelha, bem em frente ao grande carvalho de Bechar eu ouvi um som vindo de uma cabana de madeira ou algo parecido com uma , lá no topo da montanha, feita com tábuas escurecidas talvez pelo vento oeste, e coberta pelas folhas, provavelmente, dos pinheiros ao fundo; que aliás, tem caído mais do que o normal ultimamente aquele som seco, gelado, do que parecia ser aço batendo em aço ecoava por toda a montanha, ritmado e contínuo. Talvez as lendas fossem verdadeiras. Talvez o lendário líder do extinto Exército de Prata ainda por aí forjando suas lanças que perfuram a alma, ou então seus elmos que quebram paredes... Ou talvez o velho só esteja tentando fazer um espeto duro o suficiente pra furar a carne musculosa de um Yake...

Palavras de Aharon K'ohen - Gur - 1020 da Era Comum

castle on mountain surrounded by trees

Você não sabe a falta que me faz, filha...

Acordar de manhã cedo perdeu o significado para mim. É como se tudo estivesse diferente, tudo parece morto ao meu redor, até a luz do lampião parece iluminar menos. Talvez essa escuridão esteja nos meus olhos, ou talvez na minha alma. O frio desse quarto sempre me indicou que o meu tempo preferido do ano havia chegado, eu sempre gostei do inverno; mas agora parece que a estação da neve sempre vai me lembrar desse vazio áspero e gelado dentro de mim. Nós anões não temos tantos sentimentos quanto o resto das outras raças, bom, pelo menos é o que dizem. E eu costumo concordar com essa afirmação por que ela torna minha vida e meu passado mais fáceis de encarar. Mas mesmo escolhendo guardar as emoções dentro de uma gaveta nesse meu coração duro e calejado pelo tempo, esse maldito pulsante sempre acha uma maneira de me lembrar que essa dita gaveta está quase explodindo, e minha mente que outrora canalizava seu foco em me manter sobrevivendo e focado nos próximos passos a dar tem me traído nas ultimas horas e, para ser sincero, está difícil encontrar um novo propósito depois de ontem. Eu nunca tinha parado para prestar a atenção nas paredes desse quarto, como as pedras são fixadas, como elas reluzem a chama avermelhada das velas, como todos os móveis estão velhos e riscados pelo tempo, ou talvez como o som ecoa pouco aqui dentro e quão denso e palpável é o silêncio, ainda mais sem elas por perto. Essa casa se transformou em uma prisão da noite para o dia, e aparentemente eu sou o único condenado.

E foi exatamente esse sentimento de aprisionamento interno que me fez levantar da minha cama apressadamente, tentando fugir de algo que não podia ver, nem tocar. Arrumei os lençóis, afofei os travesseiros e estiquei os cobertores amassados feitos de pele de urso negro e algumas capas de pele levemente surrados pelo tempo de uso, como se aquilo fosse servir como um novo objetivo imediato. E também para fazer algum barulho que matasse o silêncio de uma vez por todas.

Porém as tarefas acabaram repentinamente e essa falsa sensação de novidade não durou muito tempo.

Fui até o local da fogueira no lado de fora da casa para preparar algo para encher o bucho, juntei os blocos de madeira em uma forma de pirâmide e por fim acendi o fogo com uma das tochas da lareira. O fogo tímido logo cresceu e aquelas chamas me lembraram da minha esposa que havia falecido a anos atrás, em uma batalha contra os bárbaros de Demétia, de onde viemos. Martha tinha os cabelos da mesma cor das labaredas que contrastavam com sua pele pálida, igualzinho a neve das montanhas ao fundo do meu campo de visão, seus olhos eram verdes da cor dos pinheiros das matas geladas do norte, onde morávamos antigamente.

Até hoje eu não sei o que aquela humana linda, inteligente e forte havia visto em um anão barbudo e rabugento como eu. E eu não sei dizer se isso é bom ou não, mas Gunhild havia herdado todos os traços físicos e até alguns talentos de sua mãe.
No caminho para o local da fogueira eu havia separado ovos de yake, pão caseiro que minha filha tinha feito dois dias atrás e um pedaço grande de queijo de cabra caro que ela havia comprado de um elfo no mercado da capital. Eu vacilei por um momento e por conta de estar com as mãos tremendo, eu fiz o favor de derrubar tudo ao chão. Tudo ali me lembrava a jovem e madura Gunhild que queria ser mãe um dia.

E além de me lembrar do amor da minha vida, o olhar para essas chamas transportou minha mente no tempo; e de repente me vi chorando feito uma criança. Aquela núvem negra de tristeza e agonia era tão densa e pesada que me levou ao ponto de precisar me debruçar na tora de cortar lenha logo atrás de onde eu estava. Minhas velhas pernas não sustentaram aqueles golpes da minha mente por muito tempo, e eu caí de joelhos na frente daquele toco cortado de árvore e não tinha nada que me fizesse levantar; perdi completamente o equilíbrio do corpo, e da mente também. Por fim consegui me encostar com as costas no tronco com muito sufoco, e derramei mais lágrimas ali do que havia feito em toda minha vida. Eu via nitidamente as imagens de minha filha brincando ainda jovem na frente de casa, com seu cachorrinho que também já não estava mais aqui. Consegui enxergar, em meio aquela cachoeira de lágrimas, imagens meio turvas daquela jovem quando voltou de sua primeira aventura, toda suja com folhas e galhos em seu cabelo e manchas de lama por todo canto em suas roupas. Me lembrei de todos os momentos bons e ruins que tive com aquele bebezinho que cresceu e se tornou uma mulher forte como aço forjado, porém doce como mel de laranjeira.

A cada memória eu sentia como se meu coração fosse comprimido, era como se alguém estivesse apertando-o muito forte com a mão. Por alguns momentos, que pareceram dias, eu perdi a habilidade de sentir o frio cortante do vento, não consegui ouvir os pássaros cantando, nem conseguia sentir o ar nos meus pulmões. Pensei que aquela angústia fosse me engolir e me arrancar da existência.

"Bom dia Robert! Vamos pai, levanta! Temos um negócio para tocar!"

Eu ouvi a voz dela ecoando na minha mente, pude ver o seu sorriso da manhã anterior claramente em frente ao meu rosto quando ela veio me acordar para irmos trabalhar, eu estiquei meu braço trêmulo na esperança de conseguir toca-la uma vez mais. E sinceramente talvez fosse tudo que eu mais queria naquele momento, encostar uma vez mais no rosto arredondado e alegre da Gunhild. Ela tinha cabelos vermelhos como as rosas do campo na primavera, igualzinho aos da mãe, tinha a delicadeza de uma flor e a força física e dureza mental de um urso pardo adulto. Ela era meu orgulho. Ela era tudo que eu tinha.

E foi em meio a esses flashes que eu lembrei vividamente de ontem, como se estivesse lá novamente. O pico do sol havia passado a poucos minutos, era hora do almoço; eu senti novamente aquele cheiro amadeirado da carne de gado sendo assada naqueles roletes de ferro sobre uma fogueira com lenha de carvalho, sim, a lenha mais fina que existe. Gunhild saiu da cozinha e veio até mim limpando o suor da testa com as luvas de couro nas mãos, com aquele sorrisão de sempre. Eu estava conversando com meu amigo Elovar que havia descido a pouco tempo. Eu nunca havia conhecido um bardo tão respeitoso quanto esse, e sua música falava com os visitantes da taverna que prestavam a atenção no soar da flauta à medida com que seus dedos deslizavam sobre os furos do instrumento, do mesmo jeito que um jovem rapaz presta a atenção aos conselhos de um velho sábio. O jovem meio-elfo também foi o único bardo que ficou noivo em toda a história da profissão.

Logo, mais aventureiros se juntaram a conversa sobre os orcs que recentemente estavam causando problemas por todo o mundo de Moriah. E eu me senti jovem novamente, planejando, trocando informações com aqueles humanos vestidos de aventureiros. Me lembro que havia um jovem rapaz alto, forte e moreno de armadura, Bolvar se não me engano, que estava ao meu lado prestando a atenção em minhas palavras, como se quisesse absorver o conhecimento que eu possuía sobre o assunto. Lembro também de outro homem, mais velho, que vestia roupas de um nobre cobertas por um sobretudo preto, como se quisesse esconder quem realmente fosse, ele falava bem e eu sentia boas intenções dentro de seu coração a medida que ele expunha seus planos e seu real objetivo no mundo. Acho que seu nome era Arthur.

Aquele momento confortante não durou mais do que alguns minutos, e quando estávamos prestes a nos despedir para que cada um seguisse o seu caminho, tudo virou da água para o vinho, quando aquele primeiro homem loiro gigantesco entrou pela porta da frente. Um rapaz largo como uma parede, com vestes de pele e uma armadura precária manchada de sangue me encarou de longe, como se quisesse encarar minha alma. e com um grito ele mudou o dia de todos ali naquele recinto.

"FOI AQUELE ANÃO! ELE QUE MATOU NOSSO IRMÃO DRAGMOR!"

Naquele dia a taverna mais confortável do país de Dirwach, "O Javali Roliço", estava completamente lotada por conta dos últimos acontecimentos no setor agrícola que possibilitava que os camponeses tivessem mais dinheiro para gastar em outras coisas além da dura sobrevivência, e talvez ter uma chama de diversão para aquecerem seus corações sofridos pelo longo tempo de servidão sem esperança. E eu vi todas aquelas pessoas correrem apavoradas por todas as saídas do local. O clima foi dos céus ao inferno em um piscar de olhos. Aos poucos mais bárbaros, que pareciam ser de Demétia, entravam pelas largas portas de madeira escura junto de alguns soldados de patrulha da cidade, e eles não vinham em paz. Eu podia sentir o ódio sangrento pela maneira como pisavam no chão. Eu realmente gostaria de poder ter esse temperamento raivoso removido de dentro de mim.

Em poucos minutos, o caos estava implantado dentro do lugar onde eu tinha erguido com minhas próprias mãos e com ajuda de minha bela filha, na esperança de que um dia meu passado militar pudesse ficar para trás. Eu tirei vidas de mais por interesses políticos de pessoas que nunca sentiram o cheiro da lama misturada com sangue, ou talvez a agonia de ser um sobrevivente em um campo de batalha. O silêncio cortante e avassalador que seguia o tilintar excitante de aço batendo em aço. Normalmente quem conta a história de um combate é o vencedor, mas o vencedor nunca escreve a parte negativa da luta. E novamente, depois de velho, me vi dentro de uma batalha sanguinária, porém desta vez eu me segurei para defender minha família e meus novos amigos que havia feito momentos atrás. Eu sentia que aquele grupo de jovens tinha boas intenções de proteger e conseguir construir um mundo melhor para as futuras gerações. No meio da batalha sangrenta que se instaurou no meio do local que era pra ser o meu motivo de levantar todos os dias, eu percebi um outro lutador no meio de nós, que assim como eu, entrou naquela barbárie para defender o rapaz que cobria suas costas com o sobretudo preto. Me vi nele. Ele vestia uma armadura completa com um elmo de leão. Uma vez meu pai me disse que pessoas que cobrem os rostos não são dignas de confiança, porém eu deixei isso de lado quando vi a vontade e a entrega deste homem. Se não me falhe a memória seu nome era Marius.

O combate foi feroz, durou muito, e logo em seguida aquilo que eu mais temia me aconteceu uma vez mais. Um sentimento familiar porém nunca desejado. O silêncio, o maldito silêncio voltou. E como sempre fiz ao fim de um combate, sacudi meu martelo que tem um entalhe de cabeça de carneiro bem na extremidade de contato, para que pudesse tirar o máximo de sangue dali, e então me virei para a direita para contar meu grupo e ter certeza de que todos estavam vivos e respirando, e foi de aquecer o coração quando pude substituir aquele sentimento de tristeza por ter arrancado futuros de jovens guerreiros com a força de minhas mãos pela alegria de ver que os rapazes que me acompanhavam estavam bem. Porém, foi quando me virei para trás que meu mundo caiu.

Eu olhei por cima de meu ombro e vi Gunhild, sentada em uma cadeira com o corpo encostado para trás, toda suja de sangue, eu consegui ver que haviam alguns cortes em seu corpo, cortes fundos o suficiente. Ela não conseguia se mexer, porém ainda segurava seu machado de guerra que era maior que eu. E com dificuldade ela me olhou nos olhos ja lacrimejando e lutando para falar alguma coisa. Enquanto cuspia sangue e tentava respirar, ela disse para que eu chegasse perto. Larguei meu martelo no chão de madeira, afundando o local aonde o pesado pedaço de ferro caiu, e corri para perto de minha filha. Coloquei minha mão direita entre o pescoço dela e a quina da cabeceira da cadeira em uma tentativa de proteger ela até do desconforto. Eu encostei minha testa sobre a dela numa tentativa de talvez confortá-la e passar uma sensação de conforto. Gunhild com muita dificuldade segurou minha mão esquerda com a sua mão esquerda e ainda lutando para forçar algum som, ela calmamente falou abafadamente. Eu não queria ouvir essas palavras.

"Pai... n-não chora. Seja forte! Eu sabia que isso iria acontecer um dia. Nós sabíamos. Eu escolhi isso e agora preciso ser justa com as consequências. Eu te amo e sempre vou estar contigo enquanto tu puder respirar, no teu coração. Vou poder me encontrar com a mamãe novamente, eu já consigo vê-la..."

Nesse momento eu não consegui mais segurar minhas emoções, e eu senti as lágrimas caindo no meu bigode e no rosto da pequena Gunhild. Eu não consegui responder nada, estava completamente paralisado pelo momento, eu apertei forte a mão dela como se dissesse para ela parar de falar, ou talvez para tentar segurar ela ali o máximo possível. Mas meus olhos estavam focados nos olhos dela, aqueles lindos olhos verdes brilhantes que me encaravam de volta, trêmulos.

E finalmente aconteceu. Meu maior medo no mundo inteiro aconteceu, e foi bem na frente dos meus olhos. Eu senti a vida de minha filha deixando seu corpo com uma última inspiração forte seguida de uma expiração pesada. Senti sua mão se abrir em volta da minha, e consegui ouvir seu machado na outra mão caindo ao chão em completa lentidão. Como se o tempo ao meu redor estivesse passando incrivelmente devagar. Eu ouvi aquele clangor do aço batendo surdo no chão de tábuas de ipê, seguido por algumas gotas do sangue que caíram junto da arma, no piso de tábuas. Eu já não conseguia respirar direito. Eu havia perdido minha segunda jóia mais preciosa. Minhas pernas estavam travadas naquela posição e tremiam como uma cana solitária no deserto ao sabor do vento. Eu chorei como criança pequena. Alguns segundos após Gunhild ter ido embora do nosso mundo eu senti uma mão nos meus ombros e, também ouvi uma voz familiar em meus ouvidos que estavam completamente entupidos. Tudo estava abafado e fora do lugar, como se eu estivesse sozinho em um universo paralelo.

"Robert... Eu sei que ela está aqui com a gente. Ela está olhando por nós e está sorrindo por que ela sabe o quão forte você é, e como vai conseguir rapidamente lembrar disso."

Eu sabia que Elovar estava tentando me ajudar, mas no momento eu senti apenas uma agonia inexplicável e uma vontade de sentir o gosto da morte por alguns segundos, na esperança daquilo passar rápido. Eu olhei nos olhos do jovem meio-élfo e respondi em uma voz meio chorosa, enquanto secava meu bigode com as costas da mão direita.

"Ela não está mais aqui, Elovar. Ela foi embora. Acabou. Vão embora antes que os guardas da cidade cheguem e vocês acabem presos para sempre. Já temos bastante vidas perdidas nesse salão, não precisamos que vocês percam as suas trancados em uma jaula qualquer embaixo do chão. Vão."

Me afastei da taverna e voltei para casa, tentando esquecer o que havia acontecido. O vento forte soprava contra meu rosto, como se quisesse me cortar. Foi bem difícil manter meu equilíbrio durante todo o tempo em que pisei naquela trilha cheia de neve e barro. Foi sem dúvida o caminho mais longo que eu ja tive que trilhar em toda a minha vida. Confesso que caí de joelhos algumas vezes durante o percurso, derrotado. A neve nunca caiu tão suavemente por aqui antes. Eu sentia os flocos de neve deslizando sobre minha testa como se minha filha estivesse querendo me fazer carinho à distância, como se estivesse tentando me acalmar. Foi duro.

Cheguei em casa naquela tarde e, seguindo os conselhos que o sacerdote do templo de YHUH havia me dado semanas antes, eu fiz uma oração para o que eu acredito ser o criador. Eu aprendi recentemente que algumas pessoas ruins do nosso mundo alteraram as sagradas escrituras para que pessoas machucadas e perdidas como eu não pudessem encontrar conforto, e eu me apeguei a Ele para talvez encontrar uma saída naquele momento tão escuro de minha vida. Por alguns segundos eu realmente encontrei, e enquanto soltava e gritava palavras de socorro dentro de meu quarto, com a porta fechada atrás de minhas costas, eu senti um abraço aquecedor me envolvendo. Senti como se algo ou alguém estivesse me lembrando que minha vida ainda não acabou. E que não importa o que acontecer, eu ainda vou carregar minhas meninas comigo aonde quer que eu vá.

Eu não consegui parar de chorar naquela noite, e só consegui dormir pela exaustão física e mental do meu corpo velho e surrado, por incontáveis batalhas. Eu acordei hoje na esperança de tudo isso ter sido apenas um sonho distante, ou um pesadelo daqueles que somem no dia seguinte. Porém não foi. Corri para fora do meu quarto em direção ao quarto da minha filinha esperando que ela ainda estivesse lá, mas não. Ali estava sua cama arrumadinha do jeitinho que ela sempre fez desde que foi ensinada. Bom. Eu sei que existem males que vem para o bem, e sei também que existe alguém maior do que eu lá em cima para ser forte por mim agora. mas uma coisa é certa...


Você não sabe a falta que me faz, filha.

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