Contos

"... Lealdade ..."

Dentro de uma prisão ou uma arena é aonde se encontram os mais fortes, honoráveis e bravos guerreiros de todo mundo; por mais que as vezes eles não se entendam a menos que a morte sirva de motivação repentina.

11/1/2021 3 min read

As flechas dos inquisitores de Eborac, que ja haviam reduzido nossas forças por um terço, foram soltas novamente como pássaros raivosos, saindo de suas jaulas. Reforços da coroa vinham pelo rio, com tambores audíveis a milhas de distância. O barulho do aço batendo contra aço, dos corpos caindo ao chão e os gritos de terror daqueles soldados amedrontados haviam se transformado em um ruído único, estridente e sem fim. Não tínhamos chance. Eu aceitei meu fim e involuntariamente eu olhei para oeste, para as montanhas dos Picos da Garra; talvez pra procurar algum acalento naqueles lindos paredões, ou então pra não olhar o golpe que tiraria minha vida. Tive que cobrir meu rosto por conta do sol, eu pensei estar vendo uma alucinação naquela montanha, por conta do calor ou do cansaço. Eu vi uma nuvem escura e reluzente, que descia aquela encosta rochosa levantando poeira, igual uma avalanche. Eu apertei meus olhos. E segundos depois, de dentro da avalanche soou um shofar; uma corneta de chifre. O chão começou a tremer. E antes que pudesse entender o que estava acontecendo, eu vi leões, ursos e todo tipo de animal humanoide atacando os inquisitores. Eu achei que éramos os próximos. Mas acabou que, o líder deles — um urso branco gigantesco que carregava um machado — gritou para que não nos machucassem. Ninguém do exército de Prata sabia que Robert havia forjado uma aliança com os Tabaxi de Trok. Foi incrível.

Palavras de Lurek "sem dedo" — Capitão do Exército de Prata — Ano 675 da Era Atual

A Lealdade é a característica mais valiosa de um guerreiro.

32º dia na masmorra de Mordred. Acordei — ou fui acordado — cedo hoje. Um dos guardas veio batendo com a ponta da lança contra as barras de ferro da porta da cela, cantando uma música horrível sobre uma sereia em cima de uma pedra em alto mar; também tem o fato de que as gotas da chuva fria do início do verão respingam mais aqui dentro da cela do que caem do lado de fora. Não tenho mais certeza do que é suor e o que é água da chuva, eu só sei que acordei encharcado; ainda bem que eu lembrei de guardar meu bloquinho dentro do gibão.

Eu não consigo me acostumar com dormir no chão duro gelado de uma cela, ainda mais sabendo que minha armadura — perfeitamente forjada em placas de aço vantilis élfico da terceira era pelas mãos do mais hábil ferreiro das terras da Dumonia; "Sariel, o artesão das planícies de Elingro" — provavelmente foi "guardada" em um caixote com todo tipo de lixo dos outros presos. Dói só de pensar. Mas, vendo pelo lado positivo, eu nunca tinha prestado tanta atenção em detalhes, no geral, ao meu redor antes de ser preso no mês passado. Não tenho certeza, mas eu acho que as pedras das paredes são fixadas com estrume de vaca e alinhadas fora de esquadro justamente para levar os presos à loucura. Eu já estou ficando agoniado por ver esses cantos mal cortados. Também é a primeira vez que eu fico em um local com uma "banheira" natural. Tem chovido desde ontem de manhã, e aparentemente, o normal por aqui é ter água até a metade da coxa; acredito que esse detalhe foi pensado por quem fez esse gelado, fedorento e desconfortável "imóvel". O serviço de quarto também é terrível, tem 15 dias que me servem a mesma pasta de grão de fava com trigo moído e cebola; e aparentemente não sou apenas eu que não aguenta mais, meu colega de cela — um homem barbudo, bem velho e todo carcomido pelo tempo, que aparentemente não entende meu idioma — já vomitou o almoço de ontem e o de hoje; tenho um pressentimento de que não virão limpar o chão. Definitivamente não vou recomendar essa cela pra ninguém, quando vierem me buscar. Espero que não demorem.

Eu reconheço que não faz parte da minha rotina acordar pacificamente, especialmente no meio de uma masmorra dentro da floresta, no segundo andar de um castelo semidestruído, gerenciado por membros do exército de um governo que mais parece uma gangue; mas por conta do que nosso querido Robert fez ontem, eu acredito que estamos seguros por aqui pelos próximos dias, talvez pelos próximos anos.


Ontem o dia começou praticamente do mesmo jeito. O mesmo guarda, a mesma lança nas mesmas barras, a mesma música sobre a maldita sereia em cima de uma pedra no meio do alto mar. Quando se trata de uma masmorra, não existe intervalo,

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